Edição 408 – Dezembro/2025
O papel do profissional de SST na era da pressa
O ano de 2025 chega ao fim. E se pudéssemos escolher uma palavra para descrevê-lo, talvez fosse pressa. Pressa para entregar, para responder, para postar, para inovar, para “não ficar para trás”. Vivemos cercados de estímulos, dados e tarefas que disputam nossa atenção a cada segundo. O mundo mudou – e nós mudamos junto. A tecnologia encurtou distâncias, mas também alongou jornadas. A Inteligência Artificial ganhou força, mas o tempo humano parece cada vez mais escasso.
Quantas vezes, neste ano, paramos por um instante para simplesmente respirar? Para ouvir uma boa música, observar a natureza ou refletir sobre o propósito do nosso trabalho? A era da pressa nos ensina que a urgência não combina com profundidade. E, no campo da SST (Segurança e Saúde no Trabalho), profundidade é justamente o que mais precisamos.
Ainda assim, 2025 foi um ano marcante. A SST conquistou espaço em agendas estratégicas, foi tema de fóruns empresariais, ganhou destaque nas universidades e nas discussões sobre produtividade sustentável. Mas o que mais se consolidou foi a compreensão de que a saúde do trabalhador não é apenas ausência de doença – é presença de bem-estar, de pertencimento e de sentido.
A integração entre áreas como Medicina do Trabalho, Psicologia, Engenharia, Ergonomia e Recursos Humanos se fortaleceu. A saúde mental, que já foi tabu (e ainda é em algumas organizações), torna-se prioridade. Empresas começaram a olhar para a qualidade das relações no trabalho – e perceberam que líderes empáticos, ambientes seguros e políticas coerentes produzem mais resultados do que qualquer software de gestão.
DESAFIOS
Mas, enquanto os sistemas se digitalizam, os trabalhadores seguem humanos. E é justamente nessa tensão – entre o avanço tecnológico e a necessidade de cuidado – que se desenha o futuro da SST.
Se até pouco tempo a missão era “cumprir norma”, hoje o que se espera é criar cultura. A norma continua importante, mas a cultura é o que transforma. O profissional de SST de 2026 precisará ser um tradutor de complexidades: alguém capaz de unir o técnico e o humano, o número e o significado, o dado e a história por trás dele.
A tecnologia seguirá como grande aliada. Plataformas integradas, dashboards inteligentes e análise de dados permitirão enxergar tendências antes invisíveis. Mas o que fará a diferença será a capacidade de interpretar essas informações com sensibilidade e propósito. Porque não há algoritmo capaz de substituir o olhar clínico que percebe um cansaço silencioso, ou o diálogo que evita um afastamento por sofrimento mental.
Prevê-se para 2026 um cenário ainda mais desafiador – e promissor:
O conhecimento técnico continuará essencial – mas será a capacidade de empatia, liderança e visão sistêmica que definirá os novos protagonistas da área.
Dados do autor:
Fernando Akio Mariya – Médico especialista em Medicina do Trabalho, professor e diretor médico para a América Latina. trabsaudavel.protecao@gmail.com