Garantir segurança dos trabalhadores terceiros segue sendo um desafio para empresas contratantes e contratadas
Reportagem de Marla Cardoso
O ano de 2026 mal começou e o país já foi marcado por mortes que expõem um problema antigo da Saúde e Segurança do Trabalho: a vulnerabilidade dos trabalhadores terceirizados. Nos primeiros dias de janeiro, um trabalhador de 28 anos morreu após sofrer uma descarga elétrica enquanto realizava manutenção na rede móvel de telefonia em Curitiba, no Paraná. No mesmo dia, em Volta Redonda, no Rio de Janeiro, um mecânico de manutenção de 45 anos se envolveu em um grave acidente na área de sinterização de uma usina siderúrgica, e não resistiu aos ferimentos, falecendo dois dias depois.
Casos como esses não são episódios isolados. Eles refletem uma realidade persistente, em que a terceirização frequentemente vem acompanhada de condições mais frágeis de SST. Falhas na gestão e no gerenciamento de riscos, treinamentos insuficientes ou inadequados, alta rotatividade e vínculos instáveis, que dificultam a construção de uma cultura sólida de prevenção, além de fiscalização e supervisão deficientes, formam um cenário que amplia a exposição desses trabalhadores a adoecimentos e acidentes.
Especialistas em SST apontam que a reversão deste quadro passa por uma mudança estrutural na forma como a terceirização é gerida no Brasil. Isso inclui o fortalecimento do gerenciamento integrado de riscos entre empresas contratantes e contratadas, começando pela definição clara de responsabilidades. Investimentos contínuos em capacitação, supervisão no dia a dia das operações e garantia de condições adequadas de trabalho e de proteção também são apontados como fundamentais. Soma-se a isso a necessidade de fiscalização mais rigorosa e de uma cultura organizacional que trate a vida e a segurança dos terceirizados com o mesmo nível de prioridade dado aos trabalhadores diretos. Mudanças como estas podem permitir que os trabalhadores terceirizados também tenham sua saúde, integridade física e a vida efetivamente preservadas no ambiente de trabalho.
A terceirização no Brasil ainda é um fenômeno difícil de mensurar. Não há um número oficial atualizado e padronizado que aponte com precisão quantos vínculos ativos no país correspondem a trabalhadores terceirizados. As bases oficiais, como a RAIS (Relação Anual de Informações Sociais), contabilizam o total de vínculos formais, mas não classificam diretamente quais deles se enquadram nessa modalidade de contratação. Diante dessa lacuna, o que existe são estimativas produzidas a partir de estudos técnicos e acadêmicos.
Um deles é a publicação Terceirização do Trabalho no Brasil: novas e distintas perspectivas para o debate, divulgada em 2018 pelo IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). O estudo aponta que, em 2014, havia 12,5 milhões de vínculos ativos em atividades tipicamente terceirizadas no país e 35,6 milhões em atividades tipicamente contratantes, o que significa que os trabalhadores terceirizados representavam cerca de um quarto do total de vínculos formais no Brasil. Uma década depois, em 2024, a força de trabalho formal brasileira ultrapassou 46 milhões de vínculos, indicando também um crescimento do contingente de trabalhadores terceirizados em relação ao período anterior.
Esse mercado apresenta características que ampliam a vulnerabilidade dos trabalhadores, especialmente em relação à Saúde e Segurança do Trabalho. A alta rotatividade e os vínculos mais instáveis estão entre os principais complicadores. A troca frequente de trabalhadores dificulta a formação de equipes experientes, compromete a continuidade do aprendizado sobre riscos e fragiliza a consolidação de uma cultura de prevenção. Além disso, a dispersão dos trabalhadores entre diferentes empresas e contratos enfraquece a organização coletiva e a capacidade de reivindicar melhores condições de trabalho e segurança.
PRECARIEDADE
A terceirização também é conhecida por ter maior concentração em funções de risco, como na construção civil, indústria pesada, energia, telecomunicações, limpeza industrial, vigilância, logística e manutenção. Neste modelo de trabalho também é comum a ocorrência de jornadas extensas, horas extras frequentes e maior pressão por produtividade, muitas vezes associadas a contratos com metas rígidas e prazos curtos. A capacitação também costuma ser mais curta, padronizada ou desvinculada dos riscos específicos do local onde o trabalho é executado, o que compromete a prevenção de acidentes.
Quem vivencia o dia a dia da SST nas empresas afirma que a principal dificuldade está na fragmentação da responsabilidade e na assimetria de informações entre contratantes e contratadas. Segundo o auditor fiscal do Trabalho da SRTE (Superintendência Regional do Trabalho e Emprego) de Mato Grosso do Sul, Kléber Silva, embora a NR 1 atribua à contratante a responsabilidade pelo gerenciamento dos riscos ocupacionais em seus estabelecimentos, a aplicação prática dessa diretriz enfrenta entraves relevantes. “A norma é clara quanto à responsabilidade, mas a execução encontra obstáculos que não são apenas técnicos, e sim organizacionais”, afirma.
Entre os fatores que contribuem para essa complexidade, Silva destaca a dualidade de culturas de segurança. De acordo com ele, é comum que a empresa contratante adote padrões mais rigorosos de SST, enquanto a terceirizada opera com uma cultura predominantemente reativa. “Alinhar essas duas mentalidades em um mesmo ambiente de trabalho, especialmente em canteiros ou operações simultâneas, é um desafio permanente”, ressalta.
Fonte: Revista Proteção
Foto: Divulgação Hydro Paragominas