28/10/2026

Enfermagem do Trabalho: Papel estratégico

Enfermeiros têm função fundamental na mediação entre trabalhador, organização e equipe.

Antes de abordarmos o papel estratégico da Enfermagem do Trabalho na implementação da nova NR 1- Disposições Gerais e Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO), é necessário contextualizar a importância e a magnitude dessa área que, ao longo dos anos, tem se consolidado como uma das mais belas e essenciais em todo o mundo. A enfermagem não é grande, ela é gigante, tanto em conhecimento quanto em representatividade numérica. Até março de 2026, segundo dados do Cofen (Conselho Federal de Enfermagem), o Brasil contabilizava mais de 3 milhões de profissionais, entre enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem. Os técnicos de enfermagem compõem o maior contingente da categoria, seguidos pelos enfermeiros e, em terceiro lugar, pelos auxiliares de enfermagem.

Os profissionais que compõem essa categoria são protagonistas no cuidado e exercem atribuições vitais para as pessoas sob sua assistência. É uma profissão regulamentada pela Lei nº 7.498/86, que normatiza o exercício profissional e define as atribuições de cada nível da categoria. Os enfermeiros, com formação acadêmica, exercem atividades de maior complexidade e atuam na coordenação de equipes; os técnicos de enfermagem, com formação técnica, desempenham atividades de média complexidade; e os auxiliares de enfermagem atuam em atividades de menor complexidade. Não é possível pensar a saúde, em todas as suas esferas e níveis de atenção, sem a atuação desses profissionais, que estão presentes nas unidades assistenciais e desempenham papel crucial no sistema de saúde, em diversos campos de atuação e especializações, incluindo a Enfermagem do Trabalho.

ESPECIALIDADE
A Enfermagem do Trabalho é mais do que uma arte, é a ciência do cuidado voltado à saúde do trabalhador, fundamentada em estudos, pesquisas e no desenvolvimento contínuo de seus profissionais. Todas as suas ações e atividades são pautadas e orientadas por leis e regulamentos que visam garantir a qualidade dos serviços prestados, a segurança das pessoas assistidas e o reconhecimento adequado dos profissionais, que se dedicam ao cuidado holístico e integral dos trabalhadores, refletindo também em suas famílias e na comunidade.
As transformações no mundo do trabalho e na sociedade, impulsionadas pela intensificação das demandas produtivas, pela digitalização dos processos e pelas novas formas de organização laboral, têm impactado significativamente a saúde e o bem-estar das pessoas, ou seja, em toda a sua completude biopsicosocioespiritual.

Para garantir que a saúde dos trabalhadores seja preservada de forma holística, faz-se necessária uma equipe transdisciplinar de saúde do trabalhador, com olhar clínico e humanizado. A humanização revela-se nos pequenos detalhes, como no uso do termo “saúde do trabalhador” em vez de “saúde ocupacional”, focando na pessoa e não na ocupação; a evolução dessa terminologia deu-se ao longo dos anos. O que parece um detalhe torna-se relevante quando acolhemos as reais demandas do ser humano biopsicosocioespiritual. Um trabalhador tem múltiplas facetas e não se define apenas por sua ocupação. Afinal, a vida é um bem imensurável e deve ser sempre a nossa prioridade.

TRANSTORNOS MENTAIS
Em 2023 foram concedidos 219.850 benefícios. Em 2024, esse total subiu para 367.909 e, em 2025, o Brasil bateu o recorde de afastamentos por saúde mental, com mais de 546 mil licenças concedidas pela autarquia. Essa evolução também se manifesta no impacto financeiro: as despesas com os benefícios seguiram a tendência de alta e superaram a marca de R$ 954 milhões apenas no último ano. O levantamento abrange benefícios concedidos como auxílio-doença (comum e acidentário) e aposentadoria por invalidez (comum e acidentária). Entre os diagnósticos mais frequentes estão os Transtornos Ansiosos (CID F41), Episódios Depressivos (CID F32), Transtorno Depressivo Recorrente (CID F33), Transtornos Relacionados ao Estresse e Adaptação (CID F43) e a Síndrome de Burnout (CID QD85).

A ansiedade e a depressão concentram a maior parte dos afastamentos, representando aproximadamente 86% dos casos registrados em alguns levantamentos recentes, e o prognóstico não é nada animador quando falamos de saúde mental. Segundo projeções da OMS (Organização Mundial da Saúde), o número de pessoas com depressão tende a aumentar, de modo que, em 2030, ela será, isoladamente, a maior causa de perdas para a população entre todos os problemas de saúde. Isso é alarmante, se fizermos um comparativo numérico, a depressão é mais comum do que outras doenças que são mais temidas pela população, como a AIDS ou o câncer. Diante desses dados, não podemos mais sequer chamar isso de “epidemia silenciosa”, pois a depressão está sendo cada vez mais diagnosticada. Está em toda parte e tende a crescer, proporcionalmente, enquanto a ocorrência de outras doenças está diminuindo. Esse cenário evidencia, de forma crescente, a urgência na adoção de medidas de prevenção, promoção e proteção da saúde mental dos trabalhadores. Uma vez que já não se pode negar que o ambiente de trabalho, onde a maior parte das pessoas passa grande parte do seu dia, pode ser um importante fator desencadeador desses transtornos mentais.

Fonte: Revista Proteção